Vicor Palla – Arte Camaleónica
Escrito por Elsa Garcia a 10/26/2011Víctor Palla foi um artista à frente do seu tempo. Numa altura em que a actividade cultural era limitada pelo Estado Novo, o artista transformou-se numa espécie de polvo experimental da arte. Dizia que gostava de ligar todas as formas de expressão e entre os anos 40 e 50 reinventou, reinterpretou e cruzou diferentes áreas numa atitude experimental e inequivocamente inovadora, tendo sido pioneiro em muitas delas. Foi arquitecto, fotógrafo, pintor, ceramista, escritor, tradutor, designer gráfico, editor, galerista e acima de tudo um agitador de ideias. Victor Palla foi protagonista de um dos mais versáteis percursos do século XX português.

“Outra vez te revejo
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui
Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo”.
Álvaro de Campos

O nome Victor Palla começou a ganhar projecção aquando da publicação do livro Lisboa, Cidade Triste e Alegre, uma obra de arte no verdadeiro sentido da palavra, que marcou Lisboa numa época e continua a deixar rasto. Palla nunca se considerou fotógrafo e a sua paixão por esta arte deriva das suas primeiras experiências como assistente do pai, caracterizador de teatro e fotógrafo amador. Numa conversa de café com o seu colega do curso de Arquitectura Costa Martins, descobriram que partilhavam uma série de gostos e que ambos já tinham algumas imagens da cidade. Foi nesta conversa que surgiu a ideia de transformar esta panóplia de imagens, e outras que se seguiram, num livro. Percorreram a cidade dia e noite calcorreando vários bairros e captando os olhares marcados das personagens que a habitavam. O resultado é um trabalho arrojado e na vanguarda do que até então se fazia, representando o retrato de uma Lisboa intimista, palpitante e humana.
As imagens tiradas pela dupla desde 1956 foram mostradas em duas exposições na Galeria Diário de Notícias (Lisboa) e na Divulgação (Porto), em 1958. O livro foi concebido em fascículos numa edição “de luxo” muito diferente dos livros de fotografia que estamos habituados a ver. A acompanhar as fotografias, poemas de autores portugueses como Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira e Alexandre O’Neill. O primeiro fascículo surgiu em Novembro de 1958 e o último, de um total de sete, em Fevereiro de 1959. Para o livro os fotógrafos escolheram 200 fotografias entre cerca de 6000, a maior parte das quais captadas em Alfama e no Bairro Alto. Cada fascículo da edição especial de 60 exemplares assinados custava 100 escudos e o volume completo ficava em 600 escudos. Na altura o livro não teve um grande sucesso e sobraram diversos fascículos que ficaram por encadernar. Estes voltaram a ver a luz do dia em 1982. Nesta data, a galeria Ether, pelas mãos de António Sena, decidiu fazer uma exposição intitulada Lisboa e Tejo e Tudo e reencadernar os fascículos que haviam sobrado. Muitas destas cópias tiveram circulação a nível internacional o que fez com que o livro atingisse outras proporções. Estas são reavivadas em 2004 aquando da publicação de The Photobook: a History, Vol1, de Gerry Badger e Martin Parr, um volume dedicado ao livro fotográfico como meio de expressão artística. Também a Fundação PLMJ fez uma exposição intitulada Em Foco – Fotógrafos Portugueses do Pós-guerra que resultou num livro com o mesmo título. Neste, Miguel Amado refere que «A importância de Lisboa, Cidade Triste e Alegre mede-se a dois níveis. Por um lado, porque revela a sintonia dos autores com a produção fotográfica edificada noutros lugares, assim assumindo contornos de pioneirismo e demonstrando uma atitude vanguardista inusitada em Portugal. Por outro porque rompe com o conservadorismo vigente no contexto fotográfico português da época, dominado pelo que se costuma designar de “salonismo”, não uma tendência ou movimento mas um somatório de práticas de natureza estilística e ideológica». No livro acima citado António Sena descreve o percurso dos fotógrafos que «deambularam pela cidade, fotografando, falando, comendo, divertindo-se com pessoas e coisas [...] O resultado é uma surpreendente variedade inconformista de fotografias apaixonadas pelos quotidianos paralelos da cidade e da própria fotografia: desde a festa do registo até aos atrevimentos da impressão, passando pelas incertezas da revelação».

Lisboa Cidade Triste e Alegre é finalmente reeditado este ano pela dupla de fotógrafos José Pedro Cortes e André Príncipe, que decidiu dar-lhe uma nova vida através da editora fundada por ambos, a Pierre von Kleist Editions. A nova edição obedece de forma fiel às características da primeira e foi feita através do método fac-simile. Inclui ainda um suplemento com uma nova introdução escrita por Gerry Badger. Em conversa com os arquitectos Rita Palla e João Palla, netos do artista, estes salientam que «é um livro histórico que marcou Lisboa naquela época. Quando foi editado teve uma grande relevância no meio intelectual, mas não o grande impacto que está a ter actualmente. Nós viviamos com ele na prateleira desde miúdos. Lembro-me de folheá-lo bastante durante a infância e vemo-lo como algo familiar e não artístico».
Para além de Lisboa Cidade Triste e Alegre, as fotografias de Victor Palla continuaram a ser pouco conhecidas, especialmente o seu trabalho mais experimental. Deste constam imagens de bailarinas e de nus femininos combinados com formas geométricas a fazer lembrar um pouco o trabalho de Man Ray. Victor Palla manipulava as imagens em estúdio e elaborava as suas próprias montagens desenvolvendo fotografias de cariz experimental. Algumas destas fotografias estiveram recentemente expostas na Galeria P4 em Lisboa.
Em 1992, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian dedicou ao artista uma retrospectiva fotográfica que incluia as obras mais recentes de Victor Palla e em 1999 ele é galardoado com o Prémio Nacional de Fotografia, atribuído pelo Centro Português de Fotografia, no Porto. Este prémio destinava-se a distinguir a carreira de um fotógrafo cuja intervenção criativa fosse considerada relevante no panorama da fotografia portuguesa. Em 2000 teve uma exposição das suas fotografias no Centre Culturel Calouste Gulbenkian em Paris.

A história de Victor Palla começa em 1939, altura em que ingressou no curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, mas é no Porto que se diploma em 1948. «O então director e também professor, arquitecto Luís Alexandre da Cunha (1893-1971), que seria conhecido como “Cunha Bruto”, mantinha ligações à PIDE e terá uma postura prepotente e déspota pautando as avaliações por critérios parciais. Discrimina os alunos consoante provêm dos liceus ou das escolas técnicas (António Arroio e Casa Pia), não reconhece às mulheres capacidade para o curso de Arquitectura, aprova ou reprova segundo as simpatias pessoais. A alternativa, para muitos, é a transferência para a Escola de Belas-Artes do Porto e fazerem lá as cadeiras daquele professor. Seguem esta opção Júlio Pomar, Victor Palla e Jorge de Oliveira, enquanto Vespeira e Azevedo se afastam em definitivo do meio académico», referiu Júlia Coutinho em José Dias Coelho – Breve Cronologia Pessoal e Afluentes. No meio deste panorama sobressaíam os seus colegas e os grupos de discussão que se foram criando, tentando assim sair do vácuo criativo imposto pelo Estado Novo. Formou-se uma espécie de balão de oxigénio numa tentativa de fazer algo pela arte. «Nós vivíamos debaixo dos escombros, nesta ruína que era o Estado Novo, e como que debaixo desses escombros a vida se agita, e as pessoas se constróem, e resistem por via cultural à opressão, e foi isso uma das coisas que caracterizou este grupo. A Cultura era uma via de resistência ao passado fascista. […] Nós pintávamos e desenhávamos o retrato uns dos outros; fizemos um cadavre exquis muito grande a carvão e a pastel. Tínhamos o culto pelo desenho», refere Manuel Tainha na tese de mestrado Victor Palla (1922-2006) Um Levantamento Crítico elaborada pelo seu neto, João Palla.
Ainda enquanto estudante, em 1944, Victor Palla foi o primeiro director artístico da Galeria Portugália, no Porto e organiza, em conjunto com Fernando Lanhas, Júlio Pomar, Nadir Afonso, entre outros, as Exposições Independentes, entre 1943 e 1950. A Livraria/Galeria Portugália passa então a ser uma referência no panorama artístico portuense. Tinha-se criado uma energia e um grupo na escola com vontade de fazer algo pela cultura. Autodenominaram-se Grupo de Estudantes de Belas-Artes e a primeira exposição surge na própria escola. Entre os artistas estavam Altino Maia, Amândio Silva, Bento de Almeida, Henrique Mingachos, Nadir Afonso, Arlindo Gonçalves da Rocha e Fernando Lanhas. Esta seria a primeira de uma série de exposições que se desenrolaria até 1950. Na segunda exposição, Victor Palla apresentou três quadros a óleo e um guache sobre cartolina. Numa crítica da época foi referida por José Dias Sanches «uma irreverência, que enveredando pelo modernismo, futurismo, cubismo e outros bizarrismos, nega o prestígio da arte […] a preocupação de remarem contra os botas-de-elástico da pintura como eles chamam, aos que, louvável e acertadamente, se cingem aos cânones da arte e às escolas que criam os verdadeiros artistas».
A partir desta data, Victor Palla dinamizou diversas iniciativas culturais, co-fundando galerias no Porto e em Lisboa e contribuindo para a promoção de diversos eventos, dos quais se destacam as Exposições Gerais de Artes Plásticas, realizadas entre 1946 e 1955. Nestas participou com obras de desenho, pintura, artes decorativas, escultura e fotografia. Em 1973 fundou a galeria Prisma com Costa Martins, Rogério de Freitas e Joaquim Bento de Almeida. Além das inúmeras mostras colectivas em que participou, fez outras exposições individuais na Galeria de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1977, na Galeria Diagonal em 1983 e na Galeria Diário de Notícias em 1984. O design gráfico e a edição foram outras áreas em que Victor Palla se distingiu desde muito cedo. Em 1952, frequentou o Publishing and Book Production Course em Londres, que lhe deu entrada no mundo da edição. «Ele lia muito e traduzia e por intermédio de Rui Feijó que o apresenta à Coimbra Editora começa por fazer capas e traduções de autores americanos. Em 1952 edita a colecção de contos policiais O Gato Preto juntamente com Francisco Branco. Seguidamente faz a colecção Três Abelhas juntamente com Cardoso Pires e posteriormente faz o Círculo do Livro com Orlando da Costa», conta João Palla.
Inovações Arquitectónicas
Falou-se de pintura, design gráfico, fotografia, mas foi em torno da arquitectura que Victor Palla se notabilizou, tendo sido pioneiro em muitas das ideias que concretizou, criando uma nova e deliberada imagem comercial para Lisboa. A partir do início da década de 50, foi um dos modernizadores da arquitectura portuguesa, sob influência brasileira e seguindo os princípios funcionalistas do Estilo Internacional. Partilhou atelier durante 25 anos com o arquitecto Bento de Almeida e foi com este que desenvolveu a maior parte dos projectos. O conceito refeição rápida ao longo de um balcão corrido foi introduzido pela primeira vez em Portugal pela dupla de arquitectos no Terminus em inícios dos anos 50. É desta parceria que nascem os primeiros snack-bares do país, entre os quais o Galeto ainda um ex-libris lisboeta e classificado pelo IPPAR, o Carossel, Tique-Taque, Piquenique e Suprema em Lisboa, e o Cunha, situado no Porto. Com um apurado sentido gráfico de intervenção artística exploraram novas formas que impunham novos hábitos. Destes novos espaços pretendia-se que fossem agradáveis associando, em simultâneo, refeições rápidas e preços acessíveis. Entrar no Galeto, o único snack bar sobrevivente, ainda representa uma experiência única. Nada como saborar o famoso bife do Galeto observando toda a arquitecura envolvente e sábia desenvolvida pela dupla. Segundo revela Rita Palla «ainda se sente o ambiente, a luz, a atmosfera. É bom ir até ao Galeto, parece que se descobre sempre algo de novo e sente-se que às vezes não parece Lisboa».
No meio de tantas actividades, qual terá sido aquela em qua Victor Palla mais se destacou? «Decidam vocês. É ingrato dizer que foi melhor nisto ou naquilo. Tudo é um processo de aprendizagem. Ele interessava-se profundamente por vários assuntos, desenvolvia um tema, parava e pegava noutro. Todo o trabalho de editor, designer, ilustrador e fotógrafo acabou por se fundir», constata João Palla.
Victor Palla faleceu a 28 de Abril de 2006, com 84 anos e só há pouco tempo lhe foi reconhecido o devido mérito. Aguardamos então uma grande exposição com a obra. Para quando será?





























