Jorge Molder – No Limiar do Sonho
11/15/2011Jorge Molder começou a sua carreira como artista na década de 1970, e desde então que tem feito exposições por todo o mundo. As suas enigmáticas e obscuras fotografias despertam os sentidos do observador que nelas se envolvem numa interacção pela descoberta do fenómeno que atrás delas se esconde. Causadoras de um efeito perturbador não só pela escuridão que as envolve como pela duplicidade da personagem que se metamorfoseia em auto-representações.

As suas fotografias transmitem uma certa inquietação, um desassossego imagético. Como é que transmite essas emoções através da lente?
Tem a ver com a questão da suspensão, com um sentido um pouco falsificador de uma ideia de narrativa. Elas parecem estar a contar qualquer coisa mas nesse momento há uma suspensão. Não é um corte de realidade mas uma apresentação do não apresentável. É essa criação de um horizonte aparente que desencadeia essa inquietação.
Cria auto-representações, são figuras ficcionais, mas que não constroem uma narrativa. Gostaria que desmistificasse…
Eu vim ao longo do tempo apercebendo-me que a minha existência não são auto-retratos e sim auto-representações, têm uma validade relativa porque é impossível omitir o tempo e este estabelece-me uma espécie de unidade distendida e que faz com que essas coisas não possam ser tão tidas e contidas. Há um lado de auto-retrato e não de auto-representação que emerge inesperadamente.
São imagens que funcionam como uma caixa de segredos, relicários e que nelas encerram uma grande complexidade.
Eu não penso em preparar algo complexo, esse factor decorre de variadíssimas circunstâncias. É o lado acidental que não é controlado, mas é o que procuro disfarçando o máximo possível.

No seu trabalho usa o seu corpo construindo várias identidades para o seu eu e para as múltiplas personagens que vai criando. Como é que surgem as ideias para a duplicidade que vai criando?
Muitas vezes aos sonhos que para mim são extremamente importantes e é a eles que vou buscar a maior parte das coisas que faço. Este ano vi o filme “A Origem” e o filme não tem grande interesse, vive de um ecrã muito grande e da nossa infiltração nessa imagem. Quando esta perde tamanho, sobressai a história afectiva que não tem qualquer relevância. Mas a personagem ao longo do filme está sempre a questionar-se em como começa um sonho e nós de facto não o sabemos. Achei interessante o facto de no filme se referir o sonhar a vários níveis que foi o que sempre senti. Como é que uma ideia surge? Tal como um sonho, sempre a meio.
Estava à espera de vencer o Grande Prémio EDP/ Arte 2010? O que representou para si este reconhecimento?
Não, estava completamente longe e asseguro que nunca tinha pensado no assunto. Foi uma surpresa completa. Uma pessoa quando faz coisas fá-las de acordo com a sua vontade e singularidade artística, mas de facto um reconhecimento, afecta-nos sempre, não somos insensíveis perante ele. Toca-nos profundamente e o único perigo existente é quando o artista começa a deixar-se levar pela necessidade de preencher espectativas.
Para além da importância de ser um prémio de carreira, representa um pouco um “statement” pela forma como a fotografia é valorizada enquanto forma de arte.
Eu acho que sim e culmina com algo que vem desde há muito tempo. A partir de certa altura a fotografia começa a imiscuir-se de forma mais consolidada no mundo das outras artes, o que se verifica sobretudo a partir dos anos 60, 70. Não só lá fora como em Portugal, com pessoas que começaram a trabalhar nesse sentido, como são os casos de Helena Almeida, Fernando Calhau, Julião Sarmento. São artistas que utilizavam a fotografia no mesmo plano que utilizavam os outros suportes. Depois também houve pessoas que se preocuparam em divulgar e em trazer a fotografia, penso sobretudo no Fernando Pernes e no Ernesto de Sousa. Não há dúvida que a fotografia foi encontrando o seu espaço e esse espaço também levou a reformular uma coisa curiosa que foi o aparecimento de fotógrafos dos quais eu me sinto próximo e que começaram a fazer fotografias com características diferentes, como é o caso de Craigie Horsfield.
A arte contemporânea está hoje mais valorizada?
Eu acho que é um universo muito vasto e nesse universo temos que descobrir um continente sólido e há muita coisa na arte contemporânea que tem mais a ver com uma deriva das zonas que contornam um continente. Há algumas coisas que são mais sensacionais que outras, mas que não são necessariamente muito decisivas. Quando visitamos museus de arte clássica estão repletos de pessoas, mas a maior parte das exposições de arte contemporânea, têm pouquíssimo público. Fui ver uma exposição de Gerhard Richter e estava sozinho no museu. Acho que é normal, temos tendência para sedimentar o passado.

Que memórias destaca dos tempos em que foi director do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Sente saudades dessa época?
Sinto, porque gostei imenso de trabalhar com artistas e nalguns casos foram experiências extraordinárias. Sinto saudades por um motivo operacional que reside no facto de me preocupar com a obra de outros artistas ao invés da minha própria obra.
Vai fazer uma grande exposição retrospectiva em breve no Museu da Electricidade?
Não será no Museu da Electricidade, nem será retrospectiva. Estive a falar com o João Pinharanda e há uma certa liberdade do que se pode fazer. Eu gostava que a exposição consistisse em dois terços de uma escolha de alguns momentos do meu trabalho e uma parte forte actual, feita propositadamente. A exposição irá acontecer dentro de dois anos e não sei onde será.































