Desenvolvendo uma arte que vive de opostos, Eduardo Nery é o artista multi-disciplinar por excelência. Estabelecendo relações plásticas e simbólicas, na sua obra são recorrentes a vida e a morte, tal como o consiente e o inconsciente, o racional e o irracional, a ordem e o caos. Nela estão presentes o lado irracional do surrealismo e dadaísmo, o absurdo e a incongruência. Uma obra caracterizada pela ironia, construção, destruição e renascimento muito evidentes na sua fase de anti-pintura, numa altura em que se saturou da mesma, enveredando por um processo de destruição da pintura. Na sua fase da colagem volta a questioná-la, fazendo uma nova abordagem à pintura em que desenvolve uma alteração profunda de obras pertencentes a vários artistas, pois grande parte do seu trabalho reside num questionamento e numa reflexão constante. No seu processo de criação, Nery faz uma investigação gestáltica, científica e rigorosa, onde a cor desempenha um papel fundamental bem como todo o jogo que faz entre espaço e luz bem presentes na sua estética.

O grande público conhece Eduardo Nery mais pela op art e pelo trabalho de arte pública que desenvolve desde o início da sua carreira artística. Um dos exemplos do seu trabalho nesta área é a intervenção em azulejo que desenvolveu para a estação de metro do Campo Grande. Nesta desmultiplicou a figura humana em intrincados puzzles que acabaram por se tornar em imagens híbridas.
A sua obra posiciona-se num diálogo entre a forma e a destruição em que assistimos frequentemente à construção e desconstrução de elementos. Existe nesta sua característica um desejo íntimo de ordenar o caos?
Eu circulo sempre entre a ordem e o caos. Considero que ambos têm que existir e o que eu procuro é fazer um ponto de encontro entre ambos. No caso da minha segunda fase de anti-pintura tratou-se de um processo destruidor, embora exista o factor regeneração a partir das cinzas. Há algo que liga tudo, o facto de eu ter consciência que o caos existe na natureza mas existe igualmente um sentido de ordem, e o ideal é encontrar pontos de equilíbrio.
Considero o Eduardo um polvo das artes porque vai abrangendo várias correntes artísticas e várias formas de expressão tendo um tentáculo em cada área. Existe alguma das correntes em que se exprime plasticamente que goste de forma especial?
(risos) Um polvo? Nunca me tinham caracterizado dessa forma, adoro o nome. Não existe nenhuma que me dê um prazer especial e sim essa possibilidade de poder variar. Detestaria fazer sempre o mesmo. Essa minha constante procura revela uma enorme insatisfação. Para mim nunca nada está resolvido, necessito sempre de ir mais além.

O seu trabalho no campo da op arte é frequentemente comparado ao de Vasarely. Como se sente perante este facto?
Angustia-me não só o facto de estabelecerem comparações constantes entre o meu trabalho e o de Vasarely como também o facto de apagarem nomes importantes no campo da op art como são os casos de Jesús Rafael Soto, Bridget Riley, Carlos Cruz-Diez, entre outros. Descobri a op art através de duas revistas internacionais que assinava na altura, apercebendo-me desta forma que já estava muito próximo daquela linguagem através da tapeçaria. Em 1960 fui para França trabalhar com Jean Lurçat, renovador da tapeçaria francesa do século XX e foi com ele que aprendi a técnica dos degradés. Esta relação dos degradés com a tapeçaria levou-me muito depressa a passar para a op art com cor, sobre a qual não tinha qualquer referência do que estavam a fazer a nível internacional. Sempre fiz muita pesquisa e como tal era perfeitamente natural para mim o meu trabalho com malhas geométricas com ilusionismo óptico tridimensional. Em 1966 eu já tinha várias obras pintadas em guache que iriam servir para fazer tapeçarias, mas o projecto não foi concretizado. Nessa altura, José Augusto França levou os slides dessas obras em degradés para a Galeria Denise René em Paris. Esta era a grande defensora da op art e da arte cinética e era no seu espaço que expunham os grandes nomes da op a nível internacional. A verdade é que os slides foram para lá e nunca mais voltaram e Vasarely apareceu com trabalhos semelhantes aos meus em 1967. Foi assim que tudo se passou e começaram a criticar-me dizendo que eu era um copista de Vasarely. Essas atitudes desmoralizaram-me porque eu tinha a perfeita consciência da autenticidade da minha obra.

Com a sua série Sólidos no Espaço joga com a perspectiva elaborando uma sucessão de cubos subvertidos. Estes podem representar o mundo virado ao contrário?
Sim, o que é mais uma das características do meu trabalho. É o meu lado dadaísta. Em termos filosóficos, na altura levantou-me uma questão. Digamos que a perspectiva avança para o futuro e eu fazia exactamente o contrário. Os movimentos eram opostos e dava-se um escorregar no tempo.
Acaba por ser uma forma irónica de ver o mundo…
Exactamente e a ironia faz parte do meu trabalho, tal qual como o absurdo. A ironia é muitas vezes um desespero. Por vezes para uma pessoa que está num mundo com o qual não concorda é a única forma de se manter vivo perante a realidade que o rodeia.
Considera-se um nostálgico? É por isso que está em permanente criação de novas realidades?
Sim, não fujo a isso e até vou mais longe. Como tenho várias facetas, jogo com o lado racional e com o oposto da espontaneidade. Falaria mesmo de romantismo. As minhas fotografias de 1981 a 85 são curiosamente imagens sobrepostas a um artista que eu gosto particularmente, Friedrich. Na altura era para mim o maior romântico de todos e com quem muito me identifico. Claro que também peguei em Magritte, Chirico e vários outros. Esse voltar ao passado relaciona-se com a minha arte. Como artista contemporâneo, estou sempre a pensar e a reflectir sobre o passado mas a abrir caminhos para o futuro.

O uso que faz do ouro na sua arte também se prende com essa nostalgia?
Sim e a primeira vez que o fiz foi na minha fase de anti-pintura em que faço uma utilização específica de molduras. As primeiras têm um lado assumidamente kitsch mas muito cedo fui preso pelas minhas próprias malhas e deixei-me apanhar pelo lado simbólico. O próprio João Pinharanda dissertou num catálogo sobre a minha antecipação do uso do ouro no séc XX. Uso esse que tinha sido rejeitado pelo próprio Kandinsky pelo facto de se querer demarcar dos ícones e de uma certa visão religiosa e política.
Essa fase da anti-pintura é um momento de grande experimentação e de ruptura. O que o levou a iniciá-la?
Na altura questionava muito a pintura. Entre 1967 e 1969 tinha desenvolvido um trabalho de concretismo e de volumes, cubos e formas geométricas. Elaborava um jogo de ilusões do desfazer da forma geométrica em relevo pela cor. Um trabalho que nunca foi reconhecido em Portugal e é assim que surge a minha fase de anti-pintura. As molduras surgem como uma espécie de revolta e o facto de serem douradas estava relacionado com um gosto burguês. A moldura é o único elemento acessório numa pintura, torna-se um adjectivo quando a pintura é o substantivo. Destruí pinturas vazias, utilizei molduras partidas e telas rasgadas. Todas elas assumiam o papel de molduras a destruir a pintura, numa atitude dadaísta e provocatória. Algumas delas simbolizam altares barrocos destruídos.
Vamos passar à sua fase seguinte, a da pintura metafísica. No início dos anos 70 enveredou por um rigor de perspectiva e luminosidade intensa na pintura. Como é que lá chegou?
No final da minha primeira fase de anti-pintura em que fiz a utilização de molduras, abri janelas com as mesmas. As últimas são molduras de onde saem cubos ou pirâmides e aí eu já estava muito próximo da utilização do ouro na minha obra e da importância simbólica do mesmo. Nas obras que que se seguiram transformei formas puras da gometria em elementos arquitectónicos. Dessa série o ícone é a obra Templos no Espaço que está exposta na Brasileira do Chiado, desenhada com uma perpectiva rigorosa a fazer recordar a mitologia greco-romana, a intemporalidade, o espiritual. Tinha encontrado a passagem da geometria pura para as formas arquitectónicas. A pintura metafísica é uma fase muito mental mas muito emocional ao mesmo tempo porque estava a retirar todo o partido da expressão da cor que é muito forte. Os animais que as percorrem representam a vida e a morte, um tema recorrente na minha obra.

É como se o animal assumisse uma simbologia dinâmica?
Sim, contra um mundo frio, e asséptico. Já vinha de trás a ausência de tempo e por aí o sentido metafisico uma vez que o tempo não existe, ou talvez exista numa sucessão de cubos ou de templos. Mas é uma sucessão que pode ser virada ao contrário. Existe uma frieza muito mental nessas obras que mais uma vez jogam em contrastes.
Houve posteriormente uma segunda fase da anti-pintura, em 1992. Esta está intimamente ligada com a morte do seu irmão…
Sim, num plano biográfico foi realmente assim. Foi um momento de grande tensão e predispôs-me a fazer-lhe uma homenagem. Mas também corresponde a um momento de ruptura e de cansaço do que estava a fazer anteriormente. Simboliza um processo de renascimento a partir das cinzas. Queimei pinturas idênticas a algumas que tinha pintado até então marcando um momento de destruição.
O fogo acaba por simbolizar a regeneração?
Sim, num plano simbólico o fogo funciona como regeneração ou ressureição, como a água no baptismo. Dos quatro elementos são os dois que têm esse papel de destruição e regeneração.
Actualmente está a voltar ao uso do ouro. Um dos exemplos foi a sua exposição Cor-Luz na Galeria Giefarte, em que o utiliza como um novo degradé na técnica op.
O ouro representa para mim a descoberta de uma nova teoria da cor. O dourado levou-me a reordenar a minha paleta de cores, porque é um trabalho minucioso juntá-lo com outras cores. O movimento retiniano que eu sempre procurei na pintura, em cima de dourado cria novos problemas e o próprio fundo destabiliza a pintura, factor que me alicia.

No caso da colagem sobre fotografia como o fez na série Museu Imaginário da Sociedade de Consumo, tentou desmontar um sistema de cultura. Foi uma forma de colocar a olho nu a forma como vê a sociedade e a forma como esta se vai constantemente adulterando?
O enfoque foi sobre a sociedade de consumo, mas na base estava o Museu Imaginário de Malraux. Era um choque entre a alta cultura e a cultura popular. Foi um pouco de tudo, havia um lado político mas foi acima de tudo uma pesquisa sobre os limites da imagem. Eu vinha da op art, da pintura metafísica. Posteriomente todo o meu trabalho de colagem seguiu para a fotografia. Faço uma pesquisa constante sobre os limites da imagem. É nesse sentido que há também uma parte de destruição, bem como de regeneração.
E o que o moveu a juntar imagens de arte antiga com publicidade?
Precisamente para espicaçar a cultura que eu julgava estar demasiado adormecida. Uma colagem de uma imagem dos media, retirada da publicidade é em primeiro lugar um choque pelo despropósito naquela pintura, pelo anacronismo.
O Eduardo tem um lado muito irrequieto e infantil, fale-me sobre essa sua característica.
Sempre fui assim, embora bom aluno que assimilava o que aprendia, mas em termos de disciplina era uma peste. Sempre usei o sentido de humor na minha arte, que é sempre uma destabilização do dia a dia.

As suas fotografias são regra geral dúbias e metamorfoseadas, nas quais sempre habitam dois mundos. São sempre óbvios para si os universos que quer confrontar na imagem?
Sim. Quando eu começo uma fotografia, sei sobretudo como a quero compôr e o que quero atingir com esses dois elementos. Uso uma técnica que descobri nos anos 80 e que não tem qualquer relação com o photoshop, pois estava a milhas de distância desta realidade. A fotografia já vem da colagem e é aliás uma evolução natural de todo um trabalho. A primeira fase da fotografia surge quando estabeleço uma ligação entre esta e a pintura. E quando começo em 1981 a usar essas sobreposições em fotografia eu estou a partir de pormenores ou reproduções de pintura à semelhança do que tinha feito na colagem. Na fotografia eu tenho dois universos, que podem ser opostos. Se por um lado faço a junção de realidades completamente antagónicas, por outro lado as imagens podem ser tão simbióticas que a osmose é perfeita.
No fundo toda a sua arte se vai encadeando, porque apesar de existirem várias fases todas elas têm uma ligação com a anterior. Embora sejam diametralemente opostas a nível plástico, acabam sempre por se complementar como se compusessem uma história.
Concordo inteiramente e fico feliz por assimilá-la dessa forma. Dou-lhe um exemplo, há pessoas que me conheceram muito novinho, na altura em que fazia obras gestuais, e que não perceberam o porquê de ter passado para a op art. Estamos a falar dos anos 60 em pleno salazarismo, com uma cultura completamente opaca. O porquê de eu ter passado de uma fase para a outra prende-se com o facto de as obras gestuais estarem relacionadas com movimento e o que é a op art senão movimento? As obras gestuais relacionam-se com o movimento do gesto da mão, dos pingos que saltam do acaso. A op é um movimento muito controlado a nível racional, um movimento cinético.
A sua série mais recente de pintura Ritmos de Cor – Jazz pode dizer-se que é ela própria um prolongamento da op art?
Pode e não consigo negá-lo. Essa fase está relacionada com o facto de eu ter retomado as malhas geométricas rigorosas em que as formas são modulares. Na minha fase da op art pura, que eu considero ortodoxa, eu tinha um sentido sistemático. Começava a pintar num canto de um rectângulo e sabia como é que ia terminar no outro canto. Tinha uma percepção de onde iria dar o máximo de contraste e onde as formas se iriam diluir. Neste caso eu começo um quadro sem saber como o vou acabar, é imprevisível.
Sente-se o ritmo do jazz na pintura. Influenciou-o nesta série?
Sem dúvida. Adoro jazz e tenho centenas de cd’s, já nem sei onde colocá-los. Fiz a série a pensar no jazz e também porque todas as pinturas têm um lado aleatório muito próximo a este género musical. Existe todo um rigor mas também toda uma improvisação. É assim que eu me sinto, perto do Mondrian, na sua fase Boogie Woogie muito ligada ao jazz.
Estabelece uma grande relação entre a pintura e arquitectura, fazendo uma articulação de espaço, ritmo e luz. Nunca lhe passou pela cabeça ser arquitecto?
Sim, passou, como é que adivinhou? Quando entrei para o Liceu, escolhi a alínea de arquitectura na altura em que o sistema era por alíneas. E depois cheguei mesmo a estudar arquitectura, mas acabei por desistir porque a paixão pela pintura começou a ser mais forte.A música também foi uma das minhas influências, eu tenho um sentido de ritmo muito elevado e muito forte que exprimo com todos os meios que tenho. O caso mais evidente é o jazz.
Voltando à fotografia, e à ilusão visual que provoca com a mesma. Por vezes traduzem-se em imagens algo fantasmagóricas. É uma forma de exorcizar os seus medos?
Um dos meus referentes muito frequentes é o contraste entre o racional e o irracional, consciente e inconsciente. Eu jogo nos antípodas. E mesmo quando estou a jogar com as cores quentes misturo-as com as frias em diálogo. Dou a maior atenção ao inconsciente. São os meus fantasmas e angústias. A única foma de travá-los é colocando-os cá fora e é o que eu faço através da arte.
Também na fotografia faz colagem, aplicando uma vez mais este conceito à semelhança do que faz na pintura. Mesmo a sua técnica de sobreposição de dois negativos acaba por ser uma colagem.
Sim, mas a outro nível. Trabalho a osmose e a diluição de duas imagens. Os extremos da imagem mantêm-se intocados e as imagens cruzam-se na zona central e o resultado é extremamente imprevisível.
Na sua última exposição Vida Dupla Casa Arrumada na Ermida de Nª Srª da Conceição, as fotografias procuram exprimir o esvaziamento humano em favor da sua identificação e osmose com o objecto?
Sim. É a minha resposta à obsessão das pessoas com os objectos e à preocupação com o status e com tudo o que isso significa. Acaba por se tornar numa sociedade do ter e não do ser devido ao domínio e controlo que esta exerce sobre nós através dos media e do poder económico. É por essa razão que esta minha exposição reflecte a desumanização em favor dos objectos.
Para si um dos principais papéis da arte é comunicar com os outros, levantar questões, ensinar, tendo um papel didáctico ao obrigar as pessoas a ver e a pensar. Consegue concretizar este seu objectivo?
Nem por isso. A sensação que tenho é de que apesar de o fazer afincadamente, os resultados são fracos. Já dei aulas, e é certo que muitos dos meus alunos, alguns anos depois me recordaram com admiração por eu ter sido um elemento fundamental para eles, sobretudo no tempo do IADE, menos no Ar.Co, em que fui um dos fundadores. Fiz visitas guiadas a museus, tenho alguma obra escrita, entre ela textos sobre a cor de Lisboa e sobre a integração da arte na arquitectura. Tenho também falado bastante em público, em palestras ou simpósios. Essa capacidade de comunicar é importante e sei que tenho deixado algumas marcas, mas sinto que estou em permanentes lutas utópicas em que não consigo interessar as pessoas. Tenho obras em que o lado da intervenção é bastante evidente, como é o caso da colagem e da minha última exposição Vida Dupla Casa Arrumada ou a Metamorfose Homem Animal e em todas elas eu procuro levar um pouco de mim aos outros. A própria op art é o levar os outros a aprender a ver e o tentar rejuvenescer a arte.

Quando faz arte pública não sente um certo receio devido ao vandalismo, uma vez que são obras de arte permeáveis à acção de várias pessoas?
Claro que sim, não só do vandalismo como da falta de cultura das pessoas que nos rodeiam. Há um divórcio da arte contemporânea com uma grande maioria da população. Fiz diversas pinturas murais no edifício Franjinhas do arquitecto Nuno Teotónio Pereira, que foram praticamente todas destruídas. Lembro-me que uma vez fui convidado para fazer uma pintura mural num centro comercial em Cascais e o lojista que estava na loja ao lado do mural, certa noite decidiu mandar pintar a parede de branco. Nem era proprietário do centro, mas como tinha uma perfumaria achou que as minhas cores não se relacionavam com os dourados e prateados das embalagens de cosmética. O pior de tudo é a inexistência de leis que defendam os artistas nestas situações. Estou farto de lutar pela não destruição de fachadas de azulejos em Lisboa e pelo país fora. Representam uma riqueza na imagem portuguesa e estão constantemente a ser destruidos. As ruas ficam empobrecidas e não tenho qualquer resultado com esta luta.
É frequentemente conotado com a arte pública. É um factor que lhe causa frustração dadas as várias correntes artísticas que aborda na sua arte?
Sim, sem dúvida. O que me irrita é que as pessoas estão cada vez mais formatadas e arquivam os artistas em gavetas com uma ou duas palavras. O artista pode inclusivé desmultiplicar-se em experiências mas tal não tem valor. No meu caso é a arte pública e a op art e para além destas correntes não existe mais nada…

Como surge a sua paixão pelas máscaras africanas? Está relacionada com a carga fantástica que as caracteriza?
Devido a essa paixão muitas pessoas me perguntam se tenho raizes africanas e de facto não tenho. Tenho sobretudo uma paixão muito grande por culturas extra europeias e arcaicas, tradicionais, tal qual como tenho por tudo o que está relacionado com o sagrado. Sinto cada vez mais falta desse sagrado à minha volta e sinto-o porque a vida nas sociedades ditas avançadas tornou-se de tal forma fria e desumana que posso mesmo falar de desumanização. Não as considero assustadoras, mas percebo o que diz, estou tão habituado a conviver com elas que não me assustam. A arte africana por um lado é muito racional ao contrário do que se diz e é por isso que Picasso e outros artistas chegaram muito perto dela. Há peças que são francamente expressionistas e outras surrealistas. Outras muito racionais, ou muito geométricas e abstractas na estrutura e no conceito. Há algo que liga tudo isto, a procura de culturas arcaicas, que faz parte dos meus muitos paradoxos. Sou um artista contemporâneo e nunca virei as costas à contemporaneidade em nada do que fiz e ao mesmo tempo tenho a nostalgia desse mundo perdido. Claro que não sou um homem só virado para o passado, no século XX encontro referências extraordinárias como Magritte, Paul Klee, Kandinsky, Mondrian, e poderia citar muito mais. Acredito de facto num real muito mais profundo e muito mais vasto.
Um dos seus projectos é fazer um Museu de Arte Africana, mas tal ainda não foi possível…
Sim, tenho uma colecção enorme, que ninguém conhece melhor do que eu próprio. Tenho todo o interesse em fazer um museu e já falei com organismos estatais para ver a sua viabilidade, mas ainda não mostraram grande interesse. No entanto não vou desistir da ideia. Vai também ser editado um livro escrito por mim sobre a Estética na Arte Africana, pela Imprensa Nacional. É um tema que me apaixona uma vez que a arte africana está intimamente ligada ao pensamento mágico, à religião e aos aspectos sociais e políticos.